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RS pode sofrer "repique" do El Niño em 2027; saiba até quando o Estado deve ficar em alerta

Defasagem entre ápice do evento e efeitos sobre o clima pode resultar em impactos sobre o sul do país até o final do outono
RS pode sofrer "repique" do El Niño em 2027; saiba até quando o Estado deve ficar em alerta
Em 2024, fase mais aguda do fenômeno ocorreu meses após primeiras inundações associadas ao calor marítimo. Jefferson Botega / Agencia RBS

Já configurado como um fenômeno muito forte, o "super El Niño" deverá atingir o ápice de aquecimento do Pacífico Equatorial no final deste ano. Isso não significa que os gaúchos poderão respirar aliviados a partir de janeiro: estudos indicam que uma defasagem entre o aumento da temperatura do mar e os efeitos na atmosfera pode prolongar a tendência de aumento da chuva no sul do país por vários meses.

Uma análise de outros períodos anômalos identifica a ocorrência frequente de um "repique" dos impactos sobre o Rio Grande do Sul entre o final do outono e o começo do inverno seguinte. Portanto, medidas de prevenção precisam ser mantidas mesmo após o Pacífico retomar a condição de normalidade.

No Encontro Nacional de Desastres, organizado no final de outubro em Fortaleza (CE), pesquisadores confirmaram que pode haver um descompasso de cerca de três meses entre as variações nos índices do El Niño e as possíveis consequências sobre o sul do Brasil.

— Ou seja, mesmo que o El Niño teoricamente termine em março, ainda podemos ter impactos até junho. Isso é parecido com o que aconteceu em maio de 1941 ou de 2024 (datas das piores cheias registradas no RS), quando já estava enfraquecendo no Pacífico Equatorial, mas os efeitos relacionados ao seu ápice ainda estavam sendo sentidos aqui — atesta o hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Fernando Fan, que participou do congresso no Nordeste.

Fan esclarece que essa demora ocorre em razão de como os elementos da natureza interagem.

A grande quantidade de energia transferida para a atmosfera pelo aquecimento do oceano não é dissipada instantaneamente. Ela demora para se transferir pelos compartimentos atmosféricos do planeta, ainda mais em locais mais distantes, como o sul da América do Sul, onde os efeitos vão sendo sentidos depois.

FERNANDO FAN

Hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS.

Na avaliação do climatologista da UFRGS Francisco Eliseu Aquino, o tempo necessário para o Pacífico retornar à condição de neutralidade pode variar:

— Se a gente entende que o pico do El Niño é em dezembro e a partir dali ele começa a arrefecer e se reorganizar para uma condição de neutralidade, isso ainda vai levar de três a seis meses, no mínimo. Às vezes é um pouco mais rápido, às vezes não. Mesmo assim, a atmosfera ainda vai estar operando pela influência desse balanço de energia, que é aquela piscina de água quente em direção à costa oeste da América do Sul.

Final do outono costuma trazer chuva intensa ao RS

Publicado em 2024 pelos pesquisadores Moacir Antonio Berlato, Gilberto Rocca da Cunha e Denise Cybis Fontana, o livro El Niño — Oscilação Sul chama a atenção para uma particularidade do fenômeno sobre o solo gaúcho. A obra sustenta que os impactos mais intensos e frequentes do aquecimento do Pacífico se concentram tradicionalmente entre a primavera e o verão. 

Porém, com base em um levantamento prévio feito por Denise e Berlato a partir dos níveis de chuva sobre o Estado de 1913 a 1995, o texto sustenta que "o declínio do aquecimento oceânico não marca o encerramento automático dos riscos climáticos, dando origem ao chamado "repique" (...): um pulso secundário de chuvas anômalas que volta a se manifestar no final do outono do ano seguinte ao surgimento do evento".

No episódio de 2023 e 2024, as primeiras inundações de grande porte associadas ao calor marítimo ocorreram em setembro e em novembro do primeiro ano, entre o final do inverno e a primavera. A fase mais aguda, porém, coincidiu com o período do repique mencionado na análise — o aguaceiro desabou em maio de 2024, mesma época do ano em que, em 1941, ocorreu outra enchente histórica.

Da mesma forma, o fenômeno iniciado em 1982 sofreu uma segunda onda de chuvaradas em maio de 1983. Durante aquele mês, choveu praticamente todos os dias nas principais regiões agrícolas do Estado. Como resultado, houve perdas de 1,2 milhão de toneladas de grãos de soja e milho. 

Esse temor é respaldado em um boletim publicado no final de outubro pelo Instituto Riograndense do Arroz (Irga). O texto diz: "É importante ressaltar que o principal efeito do El Niño ocorre durante a primavera do primeiro ano (2026) e, em um segundo momento, durante o outono do ano seguinte (2027). Em anos de El Niño, há aumentos da nebulosidade, com consequente diminuição da radiação solar, da temperatura média do ar, mas sem extremos, e da umidade relativa do ar."

Francisco Aquino afirma que, na virada para o inverno, os sistemas e correntes de ar que condicionam o tempo passam a atuar mais diretamente sobre o Rio Grande do Sul, o que eleva os riscos:

— Lá por junho ou julho a gente está indo para o inverno, que é quando a circulação atmosférica fica mais sobre nós. Isso poderia combinar com algum evento extremo sobre o Rio Grande do Sul, o que hoje não ocorre. A maioria dos eventos extremos está ocorrendo no sul do Brasil, mas com ênfase no Sudeste. Foz do Iguaçu, por exemplo, está excepcionalmente cheia. Isso está aliviando um pouco os extremos aqui, mas, na virada sazonal, lá em maio, no outono de 2027, pode acarretar algo por aqui. Não é que vai se repetir (o que ocorreu em maio de 2024), mas o ambiente atmosférico e as condições serão favoráveis.

O climatologista prevê que, por volta de abril e maio do ano que vem, a condição do oceano deverá estar um pouco mais intensa do que no mesmo período de 2024. Isso não significa obrigatoriamente que haverá uma nova enchente similar à registrada naquele ano, já que isso também depende de fatores de curto prazo, como eventuais bloqueios atmosféricos (que prolongam a precipitação sobre uma mesma área). Mas essa perspectiva deve manter a população e as autoridades em alerta e com medidas de prevenção e mitigação engatilhadas.

Isso indica que a atmosfera ainda estará respondendo (ao aquecimento do mar), e a gente terá chuva ou eventos extremos mais frequentes ou acima da média na Região Sul

FRANCISCO ELISEU AQUINO

Climatologista da UFRGS.

Situação atual já configura El Niño "muito forte"

O boletim mais recente da Administração Nacional Atmosférica e Oceânica (NOAA), dos Estados Unidos, publicado em 8 de outubro, já indicava que o fenômeno atingiu a categoria "muito forte", também chamada de "super El Niño". Essa classificação é atribuída quando a água do Pacífico Equatorial supera 2ºC além da média histórica — no começo do mês passado, já se encontrava em 2,1ºC acima do normal. O patamar atual deve ser ainda mais elevado.

Isso não significa que ocorrerão desastres equivalentes à cheia de 2024, mas aumenta o risco de eventos extremos no Estado como temporais, vendavais e inundações. A confirmação dessas ameaças depende ainda de outros fatores, como a ocorrência de bloqueios atmosféricos que mantenham a chuva por muito tempo sobre uma mesma região ou o aquecimento concomitante do Oceano Atlântico.

Fonte: GZH

M

Autor

Maira Kempf

Em: 06/11/2026, 07:49

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