Rádio Querência

Rio Grande do Sul registra, em média, 54 armas novas a cada dia

O Estado se mantém na segunda posição no país, com aumento de 29% ante os primeiros seis meses de 2020, de acordo com a PF
Rio Grande do Sul registra, em média, 54 armas novas a cada dia
Foram 9.791 registros no primeiro semestre de 2021 - Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Após ter salto na aquisição de armamentos no ano passado, o RS mantém os números em crescimento. Na primeira metade deste ano, em média, 54 armas novas foram registradas por dia na Polícia Federal. Ou seja, uma a cada 26 minutos. O tempo encurtou em relação ao mesmo período de 2020, quando a média era de 41 por dia ou uma a cada 35 minutos. O crescimento é de 29% — foram 9.791 neste semestre, enquanto haviam sido 7.579 em 2020. No ranking nacional, o Estado ainda é o segundo, atrás apenas de Minas Gerais.

A elevação da aquisição de arsenais no RS segue tendência nacional. No primeiro semestre, o país teve crescimento de 31% no registro de armas novas em comparação ao mesmo período de 2020. Foram 97.243, enquanto na primeira metade do ano passado tinham sido 73.985. Os dados indicam que a maior parte desses armamentos foi adquirida pelo cidadão comum. No RS, essa categoria representa 86% do total de armas novas — no Brasil é de 78%.

A política do governo Bolsonaro, que flexibilizou o acesso a armas e munições por meio de decretos, como havia prometido em campanha, é apontada como principal fator para o aumento. As alterações colocadas em práticas pelo governo federal dividem as opiniões. De um lado, aqueles que defendem o direito de cada um de se proteger e afirmam que há demanda pelo acesso às armas. De outro, os contrários às medidas, que entendem que gera falsa sensação de segurança e que mais armas trarão aumento da criminalidade. 

— Há um estímulo pelo discurso do presidente, que incentiva essa compra de mais armas. Vivemos numa sociedade muito desigual, onde arma circulando aumenta a possibilidade de conflitos que acabam em desfechos fatais. Do ponto de visa prático, a defesa do armamento individual como garantia da segurança é uma privatização. O Estado lava as mãos. E quem tem a arma não tem garantia de segurança. Se torna, muitas vezes, mais visado, e assim essas armas que hoje são legalizadas acabam na mão do crime — avalia o sociólogo, professor de Direito da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo.

O impacto em crimes como homicídios, feminicídios e latrocínios é um dos pontos que centraliza o debate. O RS vem apresentando queda nesses indicadores. No primeiro semestre de 2021, com redução de 1.068 para 870 casos, teve o menor índice para o período desde 2012, quando os dados destes três tipos de crime passaram a ser contabilizados individualmente. Azevedo entende que não é possível vincular o incremento na aquisição de armas como um dos fatores nessa balança. Avalia que delitos são impactados por diferentes causas, como políticas adotadas e o comportamento das facções.

—  Em 2017, o RS teve o pico da criminalidade, num contexto de crise da segurança pública e com confrontos entre grupos criminosos. De lá para cá, houve melhorias das políticas e acomodações dos confrontos. Isso não tem nenhuma relação com número maior de armas em circulação.  O aumento de armas em circulação está relacionado com aumentos de homicídios em conflitos domésticos, acidentes envolvendo crianças — analisa.

Consultor em segurança e proprietário diretor da Magaldi Escola e Clube e Tiro, Dempsey Magaldi concorda que a arma não pode ser empregada como meio de segurança pública, mas defende o direito da utilização para a defesa pessoal: 

—  Quem tem porte de arma, não é para resolver problema de segurança pública, nem questões coletivas. Se a tua vida estiver em risco, pode intervir. O problema não é arma, a arma não mata, quem mata é a pessoa que emprega inadequadamente. Orientamos sobre a questão comportamental, de emprego ou não da arma. O não emprego da arma também pode ser determinante para preservar a vida. O porte é especifico à defesa pessoal. Não é defesa do Estado. Não tem ligação com ideologia nem política de segurança.

Mais mulheres

As mudanças de comportamento durante a pandemia também tiveram impacto na ampliação do público que busca adquirir armamentos, observa Dempsey Magaldi, dono de escola de tiro em Porto Alegre. Enquanto em 2020 o consultor via armas de calibres antes proibidos sendo adquiridos por pessoas que já tinham armamentos e considerava esse um dos principais fatores para inflar os dados, neste ano o cenário é diferente. 

Percebe incremento de interessados, que desejam comprar a primeira arma e, por isso, necessitam passar pelo treinamento. Alguns relatam terem passado a morar em locais onde a polícia pode demorar a chegar, como em sítios, ou mesmo dizem se sentir mais inseguros ao trocarem apartamentos por casas.  

Outro fator que chama a atenção é que parcela significativa dos novos alunos se encontra no público feminino. As mulheres, que antes ocupavam cerca de 20% do total de pessoas que buscavam treinamento na escola e clube de tiro, hoje representam metade. Entre elas, os motivos alegados para decidir adquirir uma arma estão tanto a sensação de insegurança, quanto o fato de algum familiar já ter comprado o armamento e agora as mulheres também quererem habilitação para o uso. Visando especialmente esse público, a escola oferece também aulas de defesa pessoal.

— Damos muita ênfase nisso, de só colocar o emprego da arma se a situação não tiver solução. Pode ser por meio do conhecimento de golpes de arte marcial, de como tentar se livrar de situação de tentativa de estupro, de estrangulamento, por exemplo. O criminoso busca oportunidade — conclui Magaldi. 

Aos 41 anos, a administradora Rachel Chiesa, de Porto Alegre, decidiu realizar o treinamento para poder comprar uma arma — o curso é realizado antes de buscar autorização para aquisição junto à Polícia Federal. A decisão veio após sofrer tentativa de assalto, enquanto caminhava pelo bairro Floresta. Tentava chamar uma corrida por aplicativo, quando dois criminosos se aproximaram e anunciaram o assalto. Raquel saiu correndo, sem entregar o celular, mas, depois disso, passou a se sentir mais insegura. Realizou o curso na última semana, com o marido. A turma era composta por nove alunos, sendo quatro mulheres.

— Nunca havia pensado em ter uma arma, mas resolvi fazer por segurança, para me preparar melhor. É um investimento, que não é tão barato. Mas acredito que se paga. A nossa proposta é unicamente a nossa defesa, se for necessário — afirma

No Brasil

O movimento percebido no RS não é diferente do cenário nacional, onde a busca por armas também vem tendo incremento. No primeiro semestre deste ano, o acréscimo foi de 31% no comparativo com o mesmo período de 2020. Alguns Estados mais que dobraram os registros, como Acre, de 450 para 1.332 (196%), Mato Grosso, de 3.100 para 6.998 (125%) e Tocantins, de 533 para 1.165 (118%). Neste ranking de crescimento percentual, o RS fica em 18º lugar. 

Somente cinco Estados tiveram queda na aquisição de armas novas: Amapá (61%), Bahia (54%), Distrito Federal (43%), Alagoas (36%) e Rio de Janeiro (15%). Se olharmos somente os dados absolutos, sem comparativo, o RS aparece em segundo lugar, atrás de Minas Gerais.

Entenda

O registro concedido pela PF é o documento, válido por 10 anos, que autoriza o proprietário da arma de fogo a mantê-la em sua residência ou local de trabalho, exclusivamente. A posse é uma autorização diferente do porte, que possibilita ao cidadão andar armado. Existe ainda uma outra categoria, que permite a aquisição de armas. São os caçadores, atiradores e colecionados (CACs)  — estes não precisam se credenciar na PF. A autorização, neste caso, é concedida pelo Exército.

Fonte: GZH

E

Autor

Ed Júnior

Em: 12/07/2021, 05:46

Últimas notícias
Polícia Civil prende pastor de 36 anos suspeito de abuso sexual contra criança de 3 anos em Três de Maio
Polícia Civil prende pastor de 36 anos suspeito de abuso sexual contra criança de 3 anos em Três de Maio

Homem foi preso na manhã desta sexta-feira (10) e atuava como recreacionista na igreja; vítima é filha de casal de pastores que denunciou o caso

Briga em Estacionamento de Supermercado Deixa Homem Ferido no Centro de Ijuí
Briga em Estacionamento de Supermercado Deixa Homem Ferido no Centro de Ijuí

Confusão começou após desentendimento no trânsito; um suspeito foi preso pela Brigada Militar e o outro segue foragido.

Copa das Regiões: Santo Augusto sedia clássico decisivo entre América e Flamengo neste sábado
Copa das Regiões: Santo Augusto sedia clássico decisivo entre América e Flamengo neste sábado

Enquanto decide o futuro no torneio dentro das quatro linhas, clube de Santo Augusto já planeja festa da Libertadores Regional com o Grupo Sambando para o dia 31 de julho.

Declaração Anual de Rebanho 2026: Prazo Encerra Hoje
Declaração Anual de Rebanho 2026: Prazo Encerra Hoje

Garanta o status sanitário da pecuária gaúcha e a abertura de novos mercados internacionais

Casal é indiciado por homicídio qualificado após morte de bebê de dois meses em Crissiumal
Casal é indiciado por homicídio qualificado após morte de bebê de dois meses em Crissiumal

Investigação da Polícia Civil aponta que pai e mãe são os autores das agressões que causaram traumatismo craniano na vítima; suspeitos negam o crime

El Niño se intensifica e tem 81% de chance de atingir força histórica até o fim do ano
El Niño se intensifica e tem 81% de chance de atingir força histórica até o fim do ano

Novo boletim da NOAA aponta que o fenômeno pode ser o maior já registrado desde 1950, com efeitos que devem se estender até meados de 2027