Rádio Querência

Seguindo ordem do Papa, comissão será lançada em Porto Alegre para avaliar crimes sexuais cometidos por padres

Seguindo ordem do Papa, comissão será lançada em Porto Alegre para avaliar crimes sexuais cometidos por padres
 
A tolerância zero determinada pelo papa Francisco em relação a abusos sexuais cometidos por padres, outros religiosos e agentes de pastoral está prestes a ser implantada na Arquidiocese de Porto Alegre. Um grupo formado por especialistas e autoridades trabalha desde agosto para lançar em fevereiro, na Quarta-feira de Cinzas, com a Campanha da Fraternidade de 2020, a Comissão Arquidiocesana Especial de Promoção e Tutela de Crianças, Adolescentes e Pessoas Vulneráveis.
Por trás do nome complexo, está uma estrutura que tem o desafio de avaliar e simplificar processos que por décadas macularam a imagem da Igreja diante do problema dos abusos acobertados por superiores e nunca punidos.
A comissão é composta por padres, uma delegada da Polícia Federal (PF), uma procuradora de Justiça e por psicopedagogas, psicólogas, psiquiatras, uma assistente social e um jurista. Em maio do ano passado, o Papa deu prazo até junho de 2020 para que todas as arquidioceses do mundo criassem canais para denúncias e comissões para apuração de suspeitas de abusos sexuais. A Arquidiocese de Porto Alegre é a primeira no país a formular regramento de como os casos devem tramitar e serem apurados, além de ser uma das primeiras a instalar o comitê. — A criação da comissão é a resposta ao documento Vos Estis Lux Mundi (Vós sois a luz do mundo), carta do papa Francisco lançada em maio. O texto expressa a determinação da comunidade de fé em colaborar no combate ao abuso de poder, consciência e sexual. Desde que a Igreja se viu atingida de forma mais direta por esse tipo de crime, inaugurou-se um caminho para combatê-lo em todos as instâncias da vida eclesial, incluindo informação e formação — destaca dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano. Entre as determinações do Papa, está o fim do sigilo. Qualquer cidadão poderá ter informações sobre situações suspeitas que estejam sob investigação. Casos que chegarem ao conhecimento da Igreja serão compartilhados com o Ministério Público (MP) e as polícias. E, em no máximo 30 dias, a situação tem de ser informada à Congregação para Doutrina da Fé, em Roma. Se não fizer essas comunicações, o superior responsável será deposto imediatamente.

Reparações

Internamente, a Igreja fará um procedimento administrativo de apuração que escapa da burocracia — e da demora — do processo canônico. O prazo para conclusão é de 90 dias. Durante a investigação, o padre sob suspeita será proibido de atuar, sendo afastado do convívio social. O MP tem de ser informado sobre o local em que ele está – a medida coloca fim à sistemática da Igreja de transferir padres suspeitos para atuar em outras comunidades onde, simplesmente, os abusos poderiam se repetir.
Ao final da apuração, a conclusão será julgada pela comissão, e não apenas por um bispo, que poderia não ter a imparcialidade necessária. Se for provado caso de assédio, o padre fica proibido de trabalhar com crianças e adolescentes. Se for situação de abuso sexual (em qualquer das suas modalidades) ou de uso de imagens pornográficas, o religioso será “demitido”, ou seja, perderá o sacramento. A Igreja estará ainda comprometida com ato de reparação: pagará para a vítima tratamento psicológico, psiquiátrico e espiritual.
O trabalho é coordenado na Capital pelo padre Fabiano Schwanck Colares, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição. — Nunca mais o assunto ficará debaixo dos panos. O Papa tirou o sigilo e quer uma linha direta com os coordenadores das comissões em todo o mundo, o que impedirá que as situações não cheguem ao conhecimento dele. E os superiores que não cumprirem as determinações de rigor com a apuração serão punidos — diz padre Fabiano, mestrando em Direito Canônico. Regras de conduta, que também estão sendo formuladas pela comissão, valerão não só para padres, bispos e religiosos, mas também para freiras, seminaristas, catequistas, orientadores de grupos de jovens e funcionários das igrejas. O protocolo de como agir traz orientações simples, mas que visam a fechar o cerco em relação à vulnerabilidade de crianças e adolescentes. Por exemplo: padres não poderão receber nas casas paroquiais crianças e adolescentes desacompanhados, estão proibidos de dar carona e de promover confissão a portas fechadas ou de fazer passeios sem acompanhamento. Na Quarta-feira de Cinzas (26 de fevereiro), dom Jaime vai assinar um decreto canônico instalando oficialmente a comissão.

Como denunciar

  • No dia do lançamento da comissão, será informado um canal para receber denúncias durante 24 horas, mas as informações não podem ser anônimas
  • O denunciante será chamado para uma entrevista com assistente social. O caso começa a ser apurado
  • Suspeitas também podem ser levadas a qualquer autoridade da Igreja ou a outros órgãos, como Ministério Público e polícias
  • Para evitar denúncias vazias, o protocolo prevê que a Igreja poderá processar a pessoa que levantar suspeitas infundadas

A apuração

  • Com base nas orientações do papa Francisco, os casos serão apurados em procedimentos administrativos independentes do processo judicial canônico e, portanto, mais rápidos
  • Depois de a denúncia chegar, o Ministério Público será avisado imediatamente.
  • Nos trâmites internos da Igreja, o superior responsável que tenha conhecimento do assunto tem 30 dias para comunicar o Vaticano
  • Depois desses 30 dias, há prazo de mais 60 para a conclusão da apuração, que seguirá protocolo que está sendo formulado
  • Ao final, o caso é julgado pelos membros da comissão e ratificado pela Congregação para a Doutrina da Fé no Vaticano. As atas são enviadas ao Papa e ele emite a sentença.

Área de atuação

A Arquidiocese de Porto Alegre é formada por mais de 160 paróquias em 29 municípios, incluindo a Capital. Conta com cerca de 200 padres e 130 outros religiosos (subordinados a congregações).

Banco de dados é uma das metas

A Igreja diz não ter estatísticas sobre número de denúncias de abuso sexual envolvendo seus membros no Brasil, mas, com a criação das comissões, a organização desse banco de dados estará entre as metas. Conforme o padre Fabiano Schwanck Colares, nos últimos três anos, não houve casos envolvendo padres da Arquidiocese de Porto Alegre, mas foram registradas duas situações com religiosos (irmãos subordinados a congregações).
Uma delas é a do padre Evair Heerdt Michels, revelada por GaúchaZH em 2018. Ele foi investigado pela PF e  denunciado pelo MP por armazenar e repassar imagens de sexo ou pornografia envolvendo criança ou adolescente. A PF localizou em computadores usados por ele, que era diretor do Colégio Murialdo,  de Porto Alegre, arquivos de pornografia infantil.
Apesar disso e de estar usando tornozeleira eletrônica por ordem da Justiça Federal, ele seguia em contato com a população. Em julho de 2018, GaúchaZH o flagrou abençoando crianças durante uma missa. Depois da publicação, Michels foi afastado das funções. Ele responde a processo criminal.
— É provável que surjam denúncias até de casos mais antigos. Apesar de o tempo para prescrição desses crimes ser de 20 anos, o Papa afirmou que, toda vez que o fato tiver provocado sofrimento a ponto de a pessoa só conseguir denunciar 30 ou 40 anos depois, isso será apurado e punido — explica Fabiano.
*GaúchaZH
K

Autor

kempf.maira

Em: 06/01/2020, 08:27

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