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Cadê? O meia que foi o jogador mais caro do RS hoje recicla garrafa PET
O meia que já foi o jogador mais caro do Rio Grande do Sul no final dos anos 1990 é hoje um empreendedor no ramo da reciclagem. Beto, 42 anos, ganha a vida como sócio em uma empresa que recolhe garrafas PET em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio e a transforma em dinheiro.
Para quem não lembra, Beto foi importado pelo Grêmio em agosto de 1997. Veio do Napoli, da Itália, com status de craque e jogador de Seleção Brasileira, pela qual havia atuado na Copa América de 1995, no Uruguai. Na época, Cacalo, então presidente, não hesitou em investir US$ 3,6 milhões para comprá-lo. Beto seria o substituto de Emerson, vendido ao Bayern Leverkusen na metade daquele ano. A passagem de Beto no Grêmio ficou mais marcada pela assiduidade na noite de Porto Alegre do que pelo que fazia em campo. Foram duas temporadas antes de se mudar para o Flamengo, o clube do coração.
A relação com o clube carioca é intensa. Foi batizado Joubert pelo pai, lá em Cuiabá, numa homenagem ao técnico do Flamengo campeão estadual semanas antes do seu nascimento. O vínculo segue até hoje.
Beto faz partte do FlaMasters, time de veteranos que roda o Brasil e o mundo em amistosos com nomes como Adílio, Andrade, Marquinhos, Júlio César, o "Uri Geller", e Nélio. Zico, por vezes, também atua. E realiza o sonho de infância de Beto, de formar dupla de meias com o seu maior ídolo.
Os veteranos do Flamengo, a seleção de masters e alguns outros jogos particulares em que cobra pela presença são hoje a única relação de Beto com o futebol. Mesmo que, por vezes, as viagens para essas partidas o forcem a algumas situações espinhosas. Como a viagem para a Arábia Saudita, há alguns meses. Lá, como se sabe, ingestão de bebida alcoólica fora das zonas internacionais é crime. Foi um desafio, admite Beto, às gargalhadas:
— Lá não dá para beber nem em sonho. Mas foram dois ou três dias só. E já está bom. Essas viagens ajudam a relaxar, a descontrair.
Beto dispensa os filtros ao falar da vida boêmia dos tempos de jogador. Garante que hoje, casado e com quatro filhos, está sossegado, O pequeno Guilherme, de apenas quatro meses, amolece o coração do ex-meia.
Ele ainda tem Pedro Henrique, atacante do sub-14 do Flamengo, e Heloísa, de 10, além de Joubert, 19 anos, de um outro relacionamento. Pedro Henrique, diz, tem tudo para ser jogador. Não tem o porte físico de lutador de boxe do pai. Mas deixemos que o próprio Beto defina o filho:
— Ele é caveirinha, tem a carcaça do Robinho, do Neymar. É mais alto do que eu. Ele foi o garotinho que ganhou a chuteira do Neymar naquele jogo organizado pelo Zico.— Mas e futebol, ele tem? — pergunto.
— Ah, só depende dele. Futebol, ele tem. Foi o artilheiro do time.
Pedro Henrique tem bola no corpo e os conselhos do pai. Beto se usa como exemplo. Não esconde que viveu tanto a noite quanto o dia nos tempos de jogador. As conversas com o filho, diz, são francas, diretas como suas arrancadas nos melhores dias.
— Falo sempre com o meu filho, apesar de tudo que fiz, eu cheguei. Tem muitos aí que se acham os bam-bam-bans, fazem muita merda e não passam da esquina — diz.
Muitos dos ensinamentos que hoje aplica na vida, diz, foram aprendidos no Olímpico. A cada derrapada fora de campo, o telefone de Beto tocava. Do outro lado, a voz severa do superintendente de futebol Antônio Carlos Verardi o chamava para uma conversa. Até hoje Beto se lembra das reprimendas e do tom paternal do dirigente que, há mais de meio século atua nos bastidores do Grêmio.
— Imagina, cheguei a Porto Alegre com 22 anos, com uma fama do caramba, jogando bem. Não tem jeito, quando você é jovem acaba se deslumbrando um pouco. Se não tiver cabeça, a carreira não segue — diz Beto.
Até se aposentar em 2009, no Confiança, ele rodou por Flamengo, São Paulo, Fluminense, Brasiliense e Sanfreecce Hiroshima e Consadole Sapporo, esses do Japão. Ainda teve uma passagem rápida pelo Imbituba, em um projeto que não decolou. No Flamengo, no Grêmio e no Sanfreecce só recebeu bem depois. A dívida com o clube gaúcho só foi quitada em 2010, 12 anos depois de deixar Porto Alegre.
Por essas desilusões e por contestar o modo como os negócios são feitos no futebol fizeram com que Beto tomasse outro rumo ao se aposentar. Recusou, e tem recusado, convites para atuar como agente de jovens jogadores. Descarta os convites por "não conseguir enganar filho de ninguém".
Ao deixar o futebol, passou a trabalhar com a mulher, na adminsitração de um buffet de festas infantis que ela mantém até hoje. Depois, colocou uma distribuidora de carvão na zona oeste do Rio. Atendia restaurantes e mercados nos bairros do Recreio e na Barra da Tijuca. Mas o ritmo intenso e a necessidade de trabalhar aos sábados e, por vezes, aos domingos, o fizeram desistir.
No ano passado, um amigo apresentou-lhe a oferta de entrar como sócio na reciclagem de garrafas PET. Dois caminhões fazem o recolhimento em São Gonçalo e levam para a sede, onde máquinas trituram as garrafas. A empresa tem convênios com condomínios e em mais de cem escolas. A cada quilo entregue (cerca de 35 garrafas), a empresa deposita R$ 1. Nos casos das escolas, o dinheiro é transformado em materiais escolares e benfeitorias.
O próximo passo, diz Beto, lançar uma linha de produtos, como vassouras, camisetas e sapatos, a partir do material reciclado. O design já está pronto e traz uma marca, a Be10, que remete aos tempos de jogador daquele que já foi o atleta mais caro da história do Rio Grande do Sul.
Fonte: Gaúcha-ZH
Autor
lccomunic
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