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Desempregado acha carteira com R$ 2 mil, devolve e ganha emprego como recompensa
Adair Luis Souza de Souza, 55 anos, só se deu conta de que o bolso traseiro da calça estava vazio quando atendeu às ligações insistentes de seu corretor de seguros.
– Você não perdeu a carteira? – perguntou o interlocutor.
O acessório tinha sido localizado pelo desempregado Juliano Cruz de Morais, 27 anos, na Rua Nelson Oliveira Lopes, em Cachoeirinha, na tarde daquele sábado, 7 de outubro, quando voltava do supermercado. Um cartão de visitas do conhecido de Adair permitiu que Juliano conseguisse entrar em contato. De imediato, o empresário experimentou duas sensações simultâneas: a decepção por conta da certeza de que os R$ 2 mil em dinheiro, àquela altura, já teriam sumido e o alívio por recuperar, pelo menos, os documentos. Marcaram um encontro que logo mudaria a vida de Juliano.
Para a surpresa de Adair, o conteúdo da carteira estava intacto: o dinheiro para pagar o pedreiro por uma obra, três cartões de crédito, carteiras de identidade e de motorista, CPF, uma folha de cheque. Juliano nem chegou a contar quanto havia ali dentro. Informou que, devido ao período de dificuldades financeiras pela falta de trabalho, tivera de tirar R$ 20 do total para comprar créditos para o celular e viabilizar a devolução do objeto perdido.
– Você não existe! – elogiou o empresário, insistindo para que o jovem aceitasse R$ 100 como recompensa.
Despediram-se. Mas Adair passou o final de semana inquieto, achando que não tinha retribuído à altura pela prova de honestidade. Ligou para Juliano e, ao descobrir que o rapaz estava desempregado, pediu que procurasse seu sócio na empresa de manutenção de torres de telefonia móvel, em Gravataí, na segunda-feira.
– Mas vai mesmo – pediu.
Juliano perdera o último emprego, como porteiro, havia um ano e três meses. Vinha saindo cedo de casa todos os dias em busca de uma recolocação, mas até então a peregrinação se mostrava infrutífera. As despesas da casa estavam todas sob responsabilidade do irmão, assador de pães. A oferta de Adair parecia um milagre. Um detalhe, entretanto, dificultava a contratação para o posto mais numeroso na empresa de telefonia, o de instalador de antenas e cabos de transmissão. O serviço demanda escaladas de até cem metros, e Juliano, obeso e se submetendo a consultas e exames médicos para investigar problemas de saúde, não conseguiria executá-lo. Adair e André Alves, primos e sócios, conversaram e decidiram criar uma posição especialmente para o jovem.
– Ele cuidou do meu dinheiro. Por que não poderia cuidar do nosso estoque? – questionou-se Adair.
Três dias após achar a carteira, Juliano começava a atuar como estoquista. Com salário de R$ 1,2 mil, carteira assinada, vale-refeição e vale-transporte, toma conta de uma sala repleta de ferramentas e equipamentos de proteção individual e preenche planilhas no computador.
– Era o que eu mais queria – vibra.
O jovem afirma que tomou a única atitude possível no momento em que encontrou a carteira no chão:
– Minha mãe ensinou que não importa o valor que tiver, pode ser uma agulha, o que não nos pertence não é nosso, tem que procurar a procedência.
Adair não se cansa de elogiar a iniciativa:
– Se 40% dos brasileiros pensassem assim, já estava bom!
Nos últimos dias, a notícia do feito de Juliano começou a se espalhar. Chegou aos pais, o autônomo Breno Cardoso, 50 anos, residente em Cachoeirinha, e a dona de casa Denize Regina Cruz de Morais, 54 anos, que vive em Triunfo. Orgulhosos, ambos choraram. Na escola onde ele cursa o Ensino Fundamental na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), os colegas o aplaudiram quando entrou na sala de aula na terça-feira passada. Surpreso, Juliano pensou, num primeiro momento, que as palmas eram para algum aniversariante do dia.
– É bonito o reconhecimento, mas só fiz o correto – frisa.
No quinto dia útil de novembro, o estoquista receberá seu primeiro salário. Ainda não planejou nada especial, quer apenas repor os mantimentos que estão faltando na despensa. Quanto ao futuro na empresa, Adair garante que o empregado recém-contratado pode ir longe, sob duas condições: cuidar da saúde – Juliano deseja se submeter a uma cirurgia bariátrica para emagrecer – e dar continuidade aos estudos.
– Ele tem potencial para chegar a gerente – destaca o chefe. – Só vai depender dele.
Fonte: Gaúcha
Autor
lccomunic
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