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Mulher que confessou ter dopado e incinerado marido em forno de fumo no sul do RS vai a júri nesta semana

Elizamar de Moura Alves, 36 anos, será julgada pela morte de Erni Pereira da Cunha
Mulher que confessou ter dopado e incinerado marido em forno de fumo no sul do RS vai a júri nesta semana
Agricultor foi morto em fornalha que era usada em propriedade Polícia Civil / Divulgação

 

Uma agricultora de Dom Feliciano, no sul do Estado, irá a júri nestas semana pelo assassinato do marido. Elizamar de Moura Alves, 36 anos, responde pela morte de Erni Pereira da Cunha, 42, com quem era casada e tinha dois filhos. O crime aconteceu em fevereiro de 2021. A mulher confessou ter dopado o companheiro e arremessado seu corpo dentro de um forno de fumo na propriedade onde viviam. A defesa alega que ela sofria violência doméstica.  

O julgamento está marcado para 27 de abril, com início às 9h, no Fórum de Camaquã – município a cerca de 40 quilômetros de Dom Feliciano. Elizamar, que está presa de forma preventiva desde maio do ano passado, responde pelos crimes de homicídio, ocultação de cadáver e falsidade ideológica. Como se trata de crime contra a vida, o julgamento se dá pelo Tribunal do Júri.  

A mulher é ré por homicídio duplamente qualificado, o que pode aumentar a pena em caso de condenação. Isso porque admitiu ter dopado o marido com tranquilizante, que havia sido colocado em um suco de laranja, antes de jogá-lo dentro do forno ainda com vida. A fornalha ficava nos fundos da casa onde eles moravam e era usada para secar fumo. Para a acusação, houve uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e emprego de meio cruel no crime.  

Uma das primeiras etapas do júri, após o sorteio dos jurados, será ouvir as seis testemunhas, sendo três de defesa e três de acusação. Ao final, a ré será interrogada, embora tenha a opção de permanecer em silêncio. 

O júri será presidido pelo juiz Daniel de Souza Fleury. Por parte do Ministério Público, atuará o promotor Francisco Saldanha Lauenstein. A banca de defesa de Elizamar é composta pelos advogados Marcos Antônio Hauser, Mikaela Schuch e Igor Roberto Freitas Garcia. 

Antes de o crime ser descoberto, ao longo de três meses os familiares de Cunha procuraram por ele, sem saber que o corpo havia sido incinerado. Motivo pelo qual a agricultora também responde por ocultação de cadáver — só foram encontrados fragmentos de ossos — e por falsidade ideológica, ao forjar o desaparecimento.   

Irmã do agricultor, Ilsa Cunha da Silva, 44 anos, foi quem recebeu o telefonema da cunhada, informando que o marido havia ido embora. Mais de um ano após o crime, a família diz que espera conseguir justiça.  

Erni Pereira da Cunha / Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

— Tudo que mais esperamos é que ela seja condenada. O que ela fez é uma coisa muito triste. Por fim, minha mãe durou só mais seis meses. Faleceu em 13 de agosto, sem saber que o filho tinha morrido. A gente se sente até culpado por não ter contado. Mas como não havia nem corpo para ela se despedir, a orientação do médico foi essa — desabafa a irmã.  

A mãe do agricultor, uma idosa de 76 anos, já estava acamada quando o filho desapareceu e sofria série de doenças. A última vez que o agricultor esteve com a aposentada foi em 22 de novembro de 2020, quando ela fez aniversário. 

— Eu chegava no quarto, e ela pensava que era ele. É muito triste ela ter morrido sem saber — diz Ilsa que, assim como outros familiares, pretende ir até Camaquã acompanhar o julgamento.  

Suposto "caso extraconjugal"

Uma das possibilidades investigadas pela polícia durante o sumiço era de que Erni Pereira da Cunha tivesse ido embora para viver um caso extraconjugal. Mas pesava contra essa versão o fato de que ele não voltou a fazer contato com outros familiares e a motocicleta que costumava usar para se deslocar ter permanecido em casa. Aos poucos, o comportamento da esposa começou a levantar suspeitas.  

A polícia apurou que em 14 de fevereiro de 2021, um domingo de Carnaval, enquanto o agricultor estava em um bar próximo da propriedade onde vivia, Elizamar pesquisou na internet como matar alguém usando veneno. Aquele foi um indicativo de que ela poderia ter assassinado o companheiro. Por volta do meio-dia, ele retornou para casa e não foi mais encontrado.   

Quando foi ouvida pela polícia, a agricultora narrou o crime, dizendo que misturou o sedativo ao suco de laranja do marido e depois, quando ele já estava desacordado, transportou seu corpo até a fornalha. A mulher alegou que agiu sozinha e que a queima do cadáver teria durado três dias.   

Elizamar afirma que cometeu o crime porque era agredida pelo marido e que ele teria ameaçado os filhos. Quando ouvidos pela polícia, eles confirmaram as ameaças e agressões contra a mãe. Segundo a Polícia Civil, não há registro de ocorrência por parte da mulher. Outras possíveis motivações para o crime foram apontadas, como o fato de que o agricultor costumava beber, e a descoberta de que ele mantinha um caso extraconjugal.  

Um dos desafios da apuração foi confirmar que dentro da fornalha havia fragmentos humanos. Num primeiro momento, não foi possível identificar vestígio. Foi necessário o auxílio do Instituto-Geral de Perícias (IGP). Foram recolhidos de dentro do forno 14 quilos de compostos de cinza e carvão, que precisaram ser peneirados e separados para encontrar vestígios.  

Os fragmentos foram encaminhados para análises químicas, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas e a Universidade Federal do Rio Grande, para determinar se eram mesmo ossos humanos — a suspeita foi confirmada. Para a polícia, a análise foi considerada fundamental para comprovar a materialidade dos crimes. 

Contraponto

Os advogados Marcos Antônio Hauser, Mikaela Schuch e Igor Roberto Freitas Garcia encaminharam manifestação, na qual alegam que a cliente sofria em uma relação violenta.“Elizamar foi vítima de violência física e psicológica por parte de Erni e que no dia dos fatos, durante mais uma agressão, a exemplo de tantas outras, Elizamar reagiu, e em um ato de legítima defesa, acabou matando Erni”, diz a nota. “Ao final do julgamento restará demonstrado que a vítima nessa história é Elizamar”, finaliza.

 

Fonte: GaúchaZH

M

Autor

Maira Kempf

Em: 26/04/2022, 05:58

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