A Polícia Civil de Igrejinha começou a refazer os passos de Timóteo e a interrogar quem estava na festa. Nos primeiros relatos, as pessoas diziam que o rapaz teria consumido um entorpecente antes de chegar na casa onde o encontro estava acontecendo.
— Era uma reunião de amigos que se conheciam, uns há mais tempo, outros há poucos dias. E resolveram fazer um evento social na casa de um deles. E, no caminho para esse encontro, um deles relata que adquiriram um determinado tipo de entorpecente — explica o delegado regional Heliomar Franco.
O caso mobilizou o Departamento de Perícias Laboratoriais do Instituto-Geral de Perícias. Os testes iniciais para consumo de drogas, venenos e remédios deram negativo. Em dezembro, novo exame foi realizado para pesquisar o consumo de LSD — também sem indicar nada. Naquele momento, a causa da morte não foi definida.
Confirmação
Os resultados dessas análises e as características do óbito desafiavam a perita Fernanda Rafaela Jardim, responsável pelo caso. A suspeita era de que se tratava de droga sintética — substâncias com estrutura e efeitos farmacológicos semelhantes às drogas controladas, mas que têm variações para evitar serem classificadas como ilegais ou detectadas em análises laboratoriais.
— Não existe um equipamento que vai me dar direto que é tal substância que nem o CSI (seriado de TV sobre investigações criminais). Se não temos o padrão de referência, que pode ser adquirido comercialmente, temos de produzir esse padrão para poder fazer laudo conclusivo da substância que ele consumiu — explica o químico Marcos José Souza Carpes, do IGP.
Depois de diversas análises e métodos próprios de identificação de substâncias criados pelos peritos no Estado, o IGP identificou o que Timóteo ingeriu: a 25E-NBOH, a droga nova que pode matar no primeiro uso e que é vendida como se fosse LSD, mas por preço mais barato.
— O problema dessas drogas sintéticas novas é que não se sabe ainda quais os efeitos no organismo das vítimas, dos usuários, mas o que se sabe é que a dose letal é muito baixa. Então, o risco de a pessoa que está utilizando é muito grande porque a fabricação é feita de forma artesanal, clandestina. É uma substância muito tóxica. O nosso corpo não tem como transformar, metabolizar, em composto menos agressivo. Ele vai se expor como se fosse veneno. É um veneno e a pessoa vai a óbito — conclui a farmacêutica Maria Cristina Frank, perita criminal do IGP, que identificou a droga no corpo de Timóteo.
Essa foi a primeira vez que um laudo pericial confirma a morte por uso de drogas sintéticas.
O entorpecente
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Timóteo Lucas Hoffmann, 16 anos
Arquivo Pessoal [/caption]
Em 7 de setembro de 2018, quando Timóteo Lucas Hoffman, 16 anos, ingeriu 25E-NBOH, a substância não era considerada droga ilícita.
A substância só passou a ser proibida oficialmente três meses depois, quando foi publicada em portaria 344/98 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde — Anvisa, que define as drogas que causam riscos e passam a ser criminalizadas.
Além da 25E-NBOH, outras três novas substâncias ilícitas foram proibidas pela Anvisa, as substâncias 25B-NBOH, 25C-NBOH, e 25H-NBOH. Essas drogas apresentam estruturas moleculares e efeitos parecidos com as outras drogas sintéticas conhecidas, como o próprio LSD.