Rádio Querência

MONTAIGNE E A HONESTIDADE

MONTAIGNE E A HONESTIDADE
  MONTAIGNE E A HONESTIDADE   Quando o assunto é honestidade, lembro-me do grande Filósofo Francês do século XVI, Michel de Montaigne. Um grande pensador que observava tudo com um olhar mais sutil, pois percebia as relações humanas com uma grande cautela e relatava tudo em seus escritos que, aliás, fazia com extremo gosto e de forma diária, pois quando não estava administrando a prefeitura de Bordeaux, isolava-se em seu castelo e lá escrevia como se não houvesse amanhã. Montaigne acreditava que só se chega à sabedoria através da escrita e quando mais idoso, escreveu seu célebre livro, “Ensaios” onde fala de sua vida, seus pensamentos, suas próprias ideias e aforismos, pois estava numa fase onde não se espelhava em nenhum outro pensador, gostava de escrever sobre seu cotidiano para que as gerações futuras pudessem entender como era a forma de vida em seu tempo e levava a máxima socrática consigo, a de “Conhece-te a ti mesmo”. Mas a questão principal que quero chegar é no entendimento sobre a honestidade e como ela se manifesta no cenário social, principalmente no mundo político, onde todos fazem o que fazem e ninguém viu ou é culpado, mas não adianta, no final todos sabemos onde o calo estoura. Montaigne nos prende a atenção quando nos conta a história de certo governante romano chamado Pacuvius Calavius, que devido a enorme insatisfação da população com seus magistrados e governantes, reuniu todos na praça pública, de uma maneira atrativa conseguiu tal façanha e prendeu em uma sala todos seus governantes. Ali então conforme ia chamando um por um, passavam eles pelo julgamento do povo, sendo julgados culpados ou inocentes, quem fosse julgado culpado pelo povo, era decapitado instantaneamente. Porém, a única condição para tal era que cada governante executado, fosse substituído por alguém do povo ali mesmo que tivesse a vida limpa e que não lhe pesasse nenhuma nódoa, isto é, nada lhe fosse constado em caráter desonroso. O resto da história é adivinhável. Citava tal feito em sua grande obra, “Sobre a Vaidade”, veja bem: “Fez-se silêncio absoluto, pois todos sentiam empecilhos para a escolha; quando o primeiro mais atrevido disse um nome, elevaram-se todas as vozes em uníssono para recusá-lo, pois havia cem imperfeições e justas razões para rejeitá-lo. Como essas disposições contraditórias se tornassem acaloradas, pior ainda aconteceu com o segundo senador, e com o terceiro: havia tanta discórdia para a eleição quando concórdia para a rejeição. Cansando-se com aquele tumulto, começaram uns aqui, outros acolá, a afastar-se aos poucos da assembleia, todos levando na alma a resolução de que o velho e mais conhecido sempre é mais suportável que o mal recente e não experimentado”. Assim Montaigne nos faz refletir sobre as exigências que fazemos àqueles que nos governam e usa a máxima socrática que tanto admirava, de conhecermos a nós mesmos antes de qualquer crítica a quem quer que seja, perceba que não quero dizer para que não sejamos pedrinhas nos sapatos daqueles que colocamos no poder, isso é primordial, cobrá-los e sabermos quais os motivos que os colocamos lá, o que devemos entender é que precisamos mudar nossa estética, que é na filosofia a forma como vemos as coisas, pois esse moralismo que habita nos meios sociais é nauseante. Parece que um quer saber mais que o outro e não se respeita opiniões alheias, todas as pessoas que se dizem de bem, são as que mais guardam sujeira embaixo do tapete e mesmo assim são vaidosas, querem usar uma máscara diariamente para cobrar do outro aquilo que ela não faz. Hipócritas em demasia. Montaigne é do século XVI, mas é mais presente do que nunca, por isso que bebo em fontes seculares, para que jamais sacie a sede de conhecer o novo e compará-lo com o que foi pensado antes. Encerro aqui com uma reflexão de Montaigne e te agradeço pela leitura. “Os homens tendem a acreditar, sobretudo naquilo que menos compreendem.”   *Os textos publicados pelos colunistas da Rádio Querência são de inteira responsabilidade dos respectivos autores.
K

Autor

kempf.maira

Em: 02/10/2019, 07:10

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