Rádio Querência

“O menino do outro lado da rua”

“O menino do outro lado da rua”
“O menino do outro lado da rua”

Dinamárcia Maciel de Oliveira

  Estamos acostumados a ouvir que a educação é o caminho para a salvação de uma sociedade, e essa é uma grande verdade. Para quem duvida, estude um pouco a saga do povo japonês após o advento da bomba atômica e veja como um país destruído voltou a ser uma potência mundial ainda no mesmo século da segunda grande guerra. Mas, entre falar e defender a educação, há um percurso concreto e tortuoso a ser enfrentado, para o qual os agentes públicos e o próprio cidadão, na sua vida privada, não estão preparados ou dispostos a percorrer em muitos casos. Registro que, antes de ser Promotora de Justiça, fui, com orgulho, professora das séries iniciais e com especialização para educação infantil, e conheço as dificuldades de se lidar, no trato diário, simultaneamente, com trinta crianças, vindas de lares tão distintos, com orientações e valores familiares tão diversos, e do respeito que devemos ter com essa diversidade. E não há como excluir de mim a professora Dinamárcia, não há. Esse breve (mas consistente) período de vivência no magistério, serviu-me para amadurecimento pessoal e até hoje vale para compreender situações de conflito atendidas na Promotoria de Justiça, envolvendo professores, pais e alunos. Sou imensamente grata por isso também. Faço esse introito para abrir a história de hoje, a qual me marcou muito, muitíssimo, pois representou essa possibilidade de interferir, como Promotora de Justiça, para dar uma oportunidade de vida melhor a uma criança, para que estudasse e pudesse fazer, quem sabe, a diferença neste mundo. Ora, pois foi há muitos anos atrás, numa manhã de atendimentos à população quando a Promotoria de Justiça ainda funcionava dentro do Fórum, que se apresentou para audiência comigo uma jovem senhora, afrodescendente, muito asseada e com gestos elegantes, apesar de sua humilde condição financeira. Questionei a atendida sobre o motivo de nos procurar e dela passei a ouvir uma narrativa que me causou perplexidade imediata. Pois bem. A senhora em questão disse, com orgulho visível, que tinha lutado pelos seus estudos e concluído o segundo grau no curso de contabilista.  Mas, em tom de conformismo, referiu que se casou com um caminhoneiro e passou a ser exclusivamente dona de casa, para cuidados com os dois filhos, um com seis e outra com dois anos de idade. E o motivo de procurar o Ministério Público era conseguir, para o filho de seis anos de idade, o direito à educação em escola pública próxima de sua casa, como previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Até aí tudo bem, nada de anormal. Mas a segunda parte da narrativa é que até hoje me causa repulsa e indignação ao recordar a injustiça feita com aquela criança. Disse-me a mãe do garotinho que morava em frente ao portão de uma escola pública estadual, do outro lado da rua, mas que a vaga para seu filho foi recusada, porque a Diretora da Escola Pública disse que ali estava formado um grupo de excelência na comunidade, onde crianças de baixa renda não eram bem-vindas. Custei a crer que essa barbaridade tivesse sido proferida por uma educadora. Inacreditável. A atendida ainda explicou que a vaga foi disponibilizada em escola da periferia da cidade, distante vinte e duas quadras de sua casa, sendo que teria de fazer oitenta e oito quadras por dia, com a filha de dois anos no colo, para levar e buscar o filho. Não havia transporte escolar público à época. Controlando-me para não expressar à atendida minha revolta com a história de preconceito que me trazia a conhecimento, tomei as declarações dela por escrito e mandei fazer cópias dos documentos que me trouxe para confirmar suas afirmações – claro que os motivos da recusa da vaga na escola vizinha não estavam ali. Evidente. Então, mandei ofício à Direção da Escola, solicitando a vaga para o menino morador do outro lado da rua, por ser de seu mais cristalino direito, e pedindo a listagem dos alunos matriculados no primeiro ano do ensino fundamental, com os respectivos endereços residenciais. A resposta veio no dia seguinte, dizendo que não havia vagas e apresentando a lista solicitada. Verifiquei, então, que pouquíssimos alunos moravam nas redondezas da escola. A maioria da turma do primeiro ano era formada por crianças de famílias de média e alta classe social, moradoras do centro ou de bairros de elevado padrão. Incrível isso. A Diretora de uma escola pública era elitista e impedia os carentes, vizinhos da instituição, de ali serem matriculados. Com isso em mãos, ingressei com um Mandado de Segurança contra a Diretora da Escola Estadual em questão e obtive do Juiz de Direito o deferimento de medida liminar, para imediata matrícula da criança. Pensam que deu tudo certo? Ainda não. A história é mais incrível ainda. Pois o Oficial de Justiça foi até o colégio com a mãe e a criança, para garantir a matrícula, mas voltou ao Fórum com a resposta da Diretora, de que lá era ela quem mandava e gente do “nível do menino” não tinha lugar ali. Perplexa, então, pedi ao Juiz de Direito que a Brigada Militar acompanhasse o Oficial de Justiça para cumprimento imediato da ordem e que a Diretora fosse presa em flagrante e conduzida à Delegacia de Polícia por crime de desobediência a uma ordem judicial, caso insistisse na negativa de vaga ao garotinho. A ordem foi cumprida, então, com a Diretora simulando mal estar e desmaio conveniente, mas dizendo, ainda na presença do Oficial de Justiça, que a matrícula estava feita, mas que a criança iria pedir para sair, pois faria sua vida um “inferno” dentro da instituição. O leitor consegue digerir isso? Eu não, até hoje. Tive de ingressar com outra ação judicial, uma Ação Civil Pública, para afastamento da Diretora do cargo, a qual teve provimento – e nem poderia ser diferente, diante do abjeto contexto provado. O menino, por sua vez, começou seus estudos na escola do outro lado da rua, com a mãe, feliz e orgulhosa, mirando-o da porta de casa enquanto passava pela faixa de segurança com a mochilinha nas costas. O começo de uma vida cheia de oportunidades, de fato. Nessas minhas andanças profissionais, cerca de oito anos depois voltei à mesma Comarca, como substituta de colega Promotora de Justiça que estava em férias. Sabem quem veio me visitar em turno de atendimentos? A mãe e o filho, este já adolescente e ingressando no ensino médio. Melhor aluno da turma e com planos de estudar medicina. Vieram agradecer e mostrar as notas dele, na escola, ao longo do ensino fundamental. Fiquei emocionada, muito emocionada. O menino que morava do outro lado da rua onde situada estava uma escola pública poderia ter sido mais um a abandonar os estudos precocemente, pelas dificuldades para ir às aulas em colégio distante vinte e duas quadras de sua casa. Poderia ter uma mãe negligente como tantas outras que conheço, infelizmente, conformadas com as dificuldades e que não buscam seus direitos. Poderia, mas a história foi diferente, ainda bem. E por hoje é só. Até a próxima!    
K

Autor

kempf.maira

Em: 31/07/2019, 06:00

Mais lidas
Sorteio da Rifa Beneficente em Prol da Visão de Jardel Fagundes é Realizado pela Rádio Querência
Sorteio da Rifa Beneficente em Prol da Visão de Jardel Fagundes é Realizado pela Rádio Querência

Campanha busca auxiliar morador de Santo Augusto que aguarda transplante de córnea

Polícia Civil prende suspeito de série de furtos em Santo Augusto
Polícia Civil prende suspeito de série de furtos em Santo Augusto

Indivíduo foi encaminhado ao Presídio Estadual de Três Passos após cumprimento de mandado preventivo

Tragédia na BR-386: Acidente mata casal e filho de 12 anos no RS
Tragédia na BR-386: Acidente mata casal e filho de 12 anos no RS

As vítimas são moradoras de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Outro veículo tinha cinco ocupantes e quatro tiveram ferimentos leves.

Últimas notícias
Representantes de Santo Augusto Entregam Gestão na 20ª RT
Representantes de Santo Augusto Entregam Gestão na 20ª RT

Evento ocorre no CTG Sentinela do Rio Grande, em Independência

No rádio, o gol chega antes: Rádio Querência, em cadeia com a Gaúcha, transmite a jornada completa do Brasil
No rádio, o gol chega antes: Rádio Querência, em cadeia com a Gaúcha, transmite a jornada completa do Brasil

O Brasil entra em campo às 21h30, na Filadélfia, contra o Haiti, em busca de recuperação após a primeira rodada e de aproximação da liderança da chave.

Delícias da Festa de São João Batista: venda de quitutes movimenta o salão paroquial nesta sexta e sábado
Delícias da Festa de São João Batista: venda de quitutes movimenta o salão paroquial nesta sexta e sábado

Comunidade pode garantir cucas e pés de moleque nesta sexta e sábado; preparativos para a programação festiva entram na reta final

Polícia Civil cumpre mandados em Santo Augusto e Ijuí contra crime de extorsão
Polícia Civil cumpre mandados em Santo Augusto e Ijuí contra crime de extorsão

Entre os detidos, um deles apresenta um histórico criminal que inclui acusações de homicídio qualificado, tráfico de entorpecentes, corrupção de menores e furto qualificado.

Tragédia em Tapera: Bombeiros localizam corpo de trabalhador soterrado em armazém de grãos
Tragédia em Tapera: Bombeiros localizam corpo de trabalhador soterrado em armazém de grãos

Após mais de 37 horas de uma complexa e perigosa operação, equipes de resgate encontraram Carlos de Souza Rodrigues, de 55 anos, em estrutura da Cotrisoja.

Acidente entre ônibus e kombi escolar deixa sete crianças feridas; veículo estava sem alvará
Acidente entre ônibus e kombi escolar deixa sete crianças feridas; veículo estava sem alvará

Colisão aconteceu no centro de Passo Fundo; motorista da kombi não foi localizado e veículo operava de forma irregular desde 2024.