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Símbolo do gauchismo, tradicionalista Paixão Côrtes morre em Porto Alegre, aos 91 anos
Homem que se transformou em símbolo do gauchismo, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes morreu nesta segunda-feira (27), aos 91 anos.
De acordo com Ana Paixão, filha de Paixão Côrtes, ainda não se sabe a causa da morte do tradicionalista — ela estava se deslocando até a CTI do Hospital Ernesto Dornelles para visitar o pai quando recebeu a notícia do falecimento. Paixão Côrtes estava internado desde 18 de julho no após fraturar o fêmur em uma queda e passar por uma cirurgia. Em situação delicada pela idade avançada, Paixão sofreu algumas complicações pós-cirurgicas. Ana afirmou que a família não decidiu os próximos passos, mas assim que tiver detalhes sobre enterro e velório, as informações serão divulgadas.
O folclorista, referência no estudo — e na própria formatação — da identidade do gaúcho, deixa como legado aquilo que só cabe na biografia dos mais importantes pesquisadores: sua imagem se confunde com a do objeto que ele dedicou a vida a desvendar.
Nascido em Santana do Livramento em 12 de julho de 1927, filho de pai agrônomo e mãe com dotes musicais, Paixão carregou as duas marcas na paleta: formou-se em Agronomia na UFRGS, exerceu a profissão e chegou a ser funcionário da Secretaria de Estado da Agricultura, mas nunca negou a vocação para o trabalho com a música e as danças características da região onde viveu. Em 1939, aos 12 anos, mudou-se com a família para Uruguaiana. Em meados da década de 1940, já estava instalado na Capital — onde havia estado pela primeira vez durante o centenário da Revolução Farroupilha, em 1935 — estudando em regime de internato no IPA.
A morte do pai foi decisiva para que se matriculasse no Colégio Júlio de Castilhos. Lá, estudando à noite, já tomado pela ideia de pesquisar e fortalecer os costumes do gaúcho frente à pressão de bens culturais externos como dos EUA. Firmou parceria com Barbosa Lessa, que descreveria como um “guri pequeno e magrinho”, e acabaria por se tornar seu principal parceiro na formatação do movimento tradicionalista.
Ao longo das décadas de 1940 e 50, ao lado de Lessa e do Grupo dos Oito (turma de amigos do Julinho empenhados na pesquisa da tradição gaúcha), Paixão foi o mentor de uma série de solenidades que visavam a chamar a atenção para os símbolos socioculturais do gauchismo: a Chama Crioula (criada em 1947, como uma extensão da Chama da Semana da Pátria), o Desfile dos Cavalarianos, a Ronda Crioula (que, nos anos 1960, deu origem à Semana Farroupilha), e o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, criado em 1948 com o nome de 35, por Côrtes, Lessa, Glauco Saraiva e Hélio José Moro.
Não foi à toa que, em 1954, quando da criação da escultura do Laçador, símbolo do gaúcho, o autor Antônio Caringi bateu à porta de Paixão Côrtes em busca de um modelo para a estátua que se encontra próximo ao Aeroporto Internacional Salgado Filho. A fundação do CTG 35 acabou por inaugurar uma senda de centros de cultura semelhantes, que hoje estão espalhados por todo o mundo. Mas o trabalho de Paixão e Barbosa Lessa estava apenas começando.
Entre 1949 e 1952, a dupla estudou e catalogou mais de duas dezenas de danças praticadas no Rio Grande do Sul, para fundar, no ano seguinte, o grupo de dança Os Tropeiros da Tradição. As pesquisas também deram origem, em 1956, ao Manual de Danças Gaúchas e ao LP Danças Gaúchas, em que a cantora Inezita Barroso gravou sua voz no que é considerado o primeiro registro em fonograma do resultado das pesquisas dos folcloristas.
O MTG ficou para trás
Em 1961, a dança levou Paixão a Paris, onde passou cinco meses divulgando a tradição gaúcha em todo tipo de lugar — do Olympia à Sorbonne — e “bebendo e comendo naqueles cabarés”, como lembrou em entrevista a ZH em 2004: — Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E, mesmo assim, fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá, só dançando, só sapateando.
Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2010, Paixão jamais deixou de trabalhar na pesquisa das manifestações culturais identificadas com o Estado. Em outra entrevista a ZH, concedida em 2013, revelou que seguia trabalhando na organização e sistematização da pesquisa realizada ao longo de toda sua vida, e que gostaria de publicar em uma edição única de aproximadamente 700 páginas. Paixão tinha até um título provisório para a obra, que vinha alinhavando com a ajuda do filho Carlos Paixão Côrtes: Dançando à Moda dos Antigamentes.
Combinava o trabalho com os cuidados à saúde já debilitada: entre o final de 2012 e o começo de 2013, ficou quase quatro meses internado em um hospital devido a complicações de uma diverticulite (inflamação de bolsas no intestino grosso). Em seus últimos anos, demonstrou mágoa com os rumos do MTG e a condução de duas diretrizes por parte dos dirigentes atuais do movimento. Na entrevista publicada em Zero Hora em 2010, questionou a “obsessão com o passado” e o “fechamento absoluto para valores a serem descobertos” no presente e, quem sabe, no futuro. — A tradição é algo que brota espontaneamente. No momento em que ganha formas delimitadas, exatas, ela perde a própria razão de ser — disse.
Laçador de carne e osso
Não foi feita para ficar em Porto Alegre a estátua-símbolo do gaúcho, que gravou a imagem de Paixão Côrtes para sempre no imaginário sul-rio-grandense. Deveria ter sido despachada rumo a São Paulo, para a exposição que celebrava quatro séculos da capital paulista, em 1954. O concurso público determinava a execução de uma escultura que identificasse o homem do Rio Grande do Sul. Venceu o concurso o artista plástico Antônio Caringi, um pelotense que estudou escultura na Academia de Belas Artes de Munique.
Foram quatro anos entre o concurso e a inauguração da estátua, que, devido ao clamor popular, acabou sento instalada na entrada de Porto Alegre. Nela, estão representados o gaúcho e sua indumentária típica: tirador, laço, guaiaca, bombacha, lenço, camisa, botas e vincha na cabeça.
Em 2007, a escultura foi transferida do Largo do Bombeiro para o Sítio do Laçador, para permitir a construção do viaduto Leonel Brizola. Em novembro de 2012, lúcido e atento aos símbolos da cultura gaúcha, Paixão Côrtes apontou 10 problemas com o objeto — parte deles ocasionada pela mudança de local. Na ocasião, falou sobre a pose que fez para Caringi:
— O olhar no infinito, na saída da porteira, olhando o gado para laçá-lo. É o domínio sobre o animal, não é somente controlá-lo. Eu tenho uma missão. Eu sou o Laçador.
Oito Guris e a História
Paixão Côrtes era um estudante do Colégio Júlio de Castilhos, em 1947, quando fundou a solenidade que antecipou a Semana Farroupilha. Naquele ano, acompanhado por colegas como Cyro Dutra Ferreira, Cilço Campos, Orlando Degrasia e outros, criara o Departamento de Tradições Gaúchas, ligado ao grêmio estudantil da escola, em um movimento que buscava “regauchar” o Estado.
A nota enviada à imprensa na época dizia que o objetivo do departamento era “preservar este legado imenso dos nossos antepassados, constituído do amor à liberdade e da grandeza de convicções representadas pelo sentimento de igualdade e humanidade”.
A Ronda Gaúcha, como foi chamada a série de atividades, teve início em 7 de setembro e se estendeu até o dia 20. Um dos eventos mais significativos foi um piquete que acompanhou a chegada a Porto Alegre dos restos mortais do general farroupilha David Canabarro, vindos de Sant’Ana do Livramento. Ao chegar à Capital, os piqueteiros acenderam uma centelha no Fogo Simbólico da Pátria, e dali fizeram o Candeeiro Criouro. Era 7 de setembro de 1947. A chama foi levada a cavalo ao saguão do Julinho e mantida acesa em vigília até o dia 20, em homenagem aos mortos na Guerra dos Farrapos.
Fonte = Gaúcha ZH
Autor
lccomunic
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