Início Colunista Voltar

Sem Qualquer Pudor

Se o trabalho diário de um Promotor de Justiça é voltado ao enfrentamento de questões muito sérias, graves...

Por Dinamárcia Maciel Oliveira 17/12/2019



Se o trabalho diário de um Promotor de Justiça é voltado ao enfrentamento de questões muito sérias, graves, tantas vezes envolvendo situações dramáticas entre agressores e ofendidos, há também aqueles (raríssimos) momentos – que eu não classificaria propriamente como “engraçados”, até porque envolvem algum semelhante em dificuldades –, mas que não nos podem tirar a humana vontade de rir, quase instintivamente, diante do caráter inusitado da circunstância. Recordo de algumas passagens de menor peso dramático e com viés de humor até, que presenciei no exercício da profissão, nesses longos anos. Numa delas, a vítima era o marido. A vilã, a esposa, rasgara as melhores roupas e a gaita-piano do vivente, para que ele não saísse mais a tocar em bares e botecos, deixando-a sozinha em casa. A senhora, apontada como autora da infração, também deu vários tapas no rosto do cônjuge, mas sem deixar marcas. Quando questionado se queria mesmo vê-la punida, ele exclamou: “Mas, como vou querer punir a minha véia, se eu amo essa mulher, meu lindo pessegueiro véio?!” Saíram reconciliados da audiência, é claro. Ele prometeu que a levaria junto aos bares, nas próximas vezes. Ficamos sabendo, o Juiz e eu, que a comparação com o pessegueiro velho é a seguinte: “Tá véio, tá feio, mas ainda dá fruto e flor.” Em outra oportunidade, em Comarca próxima de Porto Alegre, a audiência envolvia uma discussão sobre a guarda de uma menina com menos de dez anos de idade na ocasião. O pai queria a filha para si, ao argumento que a mãe era prostituta em boate local e não cuidava bem da criança. Na abertura da audiência, a Juíza esclareceu à mãe que a guarda tinha sido dada provisoriamente ao pai, fazia dias já, e ela (a mãe) não tinha recorrido da decisão. Foi então que a moça virou para o seu advogado e disse: “Mas por que tu não recorreste, Fulano?! Se o problema era dinheiro, podia passar lá na boate e eu te pagava com meu serviço.”  Sem palavras para descrever a vergonha do jovem advogado nessa hora. Silêncio absoluto. Em outras vezes, e daí digo que “infelizmente”, rimos sozinhos, em leitura, pelo absurdo constatado. “Como assim?”, pensaria neste momento o ilustre leitor deste modesto artigo. Explico, então. Imagine que um cidadão vai até a Delegacia de Polícia, para registrar uma Ocorrência Policial. Até aí, tudo dentro da normalidade. Mas o que ele vai registrar é uma reclamação, de que foi vítima de um golpe, de um estelionato, porque tentou comprar uma Carteira Nacional de Habilitação, sem ter de fazer as provas, e o sujeito que lhe prometeu o documento ficou com o dinheiro, sem cumprir sua parte no ajuste (!!!). Santa inocência do maldoso, não é mesmo? O trapaceiro foi trapaceado e quer a defesa do Estado, o mesmo Estado que ele queria enganar com uma CNH obtida de modo ilícito. O lamentável aqui, em meu sentir, é que a cultura da transgressão, da obtenção da vantagem indevida, do “jeitinho brasileiro”, está tão incrustada culturalmente no cotidiano da Nação, que muitas pessoas agem, realmente, sem qualquer pudor. Santa paciência! Até a próxima!     *Os textos publicados pelos colunistas da Rádio Querência são de inteira responsabilidade dos respectivos autores.

Ouça aqui

89.7 FM

Amanhecer na Querência

Ouça aqui

91.5 FM

Amanhecer na Querência
89.7
91.5